Toda família conhece essa cena. Chega a hora de dormir, você oferece três livros novos e seu filho estende a mão para aquele mesmo, com a capa gasta e a página dobrada no canto. Aquele que vocês já leram ontem, anteontem e na semana inteira.

E aí vem a pergunta: “De novo?”

De novo. E eu vou te contar por que esse “de novo” é uma das coisas mais bonitas que acontecem dentro de uma criança.

A criança não está empacada, ela está aprendendo

A gente, adulto, lê uma história para saber como ela termina. Depois que descobre, parece que acabou. A criança funciona de outro jeito. Para ela, cada releitura é uma leitura nova.

Na primeira vez, ela está só tentando acompanhar o que acontece. Tudo é novidade: os personagens, o caminho, o susto, o final. Na quinta vez, ela já sabe o que vem, e por isso consegue respirar. Aí começa a reparar no que antes passava despercebido: uma palavra diferente, um bichinho escondido no canto da ilustração, o jeito como a voz muda na hora do medo. Na décima vez, ela já está esperando a sua pausa para dizer a frase junto.

Como a história já é conhecida, sobra espaço na cabecinha dela para os detalhes. É por isso que a repetição não cansa a criança. Ela alimenta.

O que a ciência descobriu sobre isso

Isso não é só intuição de mãe, de avó ou de contadora de histórias. Em 2011, a psicóloga Jessica Horst e sua equipe, na Universidade de Sussex, na Inglaterra, fizeram um estudo com crianças de 3 anos. Durante uma semana, um grupo ouviu histórias diferentes e outro grupo ouviu as mesmas histórias repetidas. As palavras novas ensinadas eram as mesmas para todos.

Logo depois das leituras, os dois grupos se saíram bem. Mas uma semana depois, só as crianças que tinham ouvido as mesmas histórias ainda lembravam das palavras novas. Para elas, aquelas palavras tinham deixado de ser novidade e passado a fazer parte do vocabulário de verdade.

A conclusão da pesquisadora me encanta: a criança não precisa de uma pilha enorme de livros. Ela precisa voltar muitas vezes aos livros que ama.

Então por que a gente se cansa?

Porque somos adultos, e está tudo bem. Quem lê pela trigésima vez é que sente o peso. Mas existe um segredo: dá para tornar a releitura divertida também para quem lê, sem trocar de livro. Algumas brincadeiras que funcionam muito bem:

Deixe a frase no meio. Leia até quase o final da frase e pare. Seu filho vai completar, e o brilho no olho dele ao perceber que sabe a história é impagável.

Erre de propósito. “E a Iná caiu de cima da… geladeira!” A criança vai corrigir na hora, indignada e às gargalhadas. Esse pequeno “não, não é assim!” mostra que ela entendeu e guardou a história.

Troque os papéis. Peça para ela “ler” para você. Mesmo quem ainda não sabe ler conta a história pelas figuras, e você vai se surpreender com o que ela lembra e com o que ela inventa.

Pergunte “e se…?”. Quando a história terminar, abra uma porta nova: “E se o Rato Véi Pôdi tivesse medo do tatame?”, “E se o Nôah não fosse um caracol?”. A história conhecida vira ponto de partida para uma história que ainda não existe.

Procure o que ninguém viu. Transforme cada releitura numa caça ao detalhe: “Hoje vamos achar uma coisa na ilustração que a gente nunca tinha notado.” Os ilustradores costumam esconder pequenos tesouros nas páginas, e a criança adora ser a primeira a encontrar.

Mude a voz. Uma noite o lobo fala fininho, outra noite a vovó fala grosso. A história é a mesma, mas a leitura nunca é igual.

O livro favorito é um lugar seguro

Existe ainda outra razão para a criança voltar sempre à mesma história, e ela não tem a ver com vocabulário. O livro conhecido é um lugar seguro. Ela sabe que o personagem vai passar pelo susto e que tudo vai ficar bem no final. Num mundo cheio de coisas novas e às vezes assustadoras, saber exatamente o que vai acontecer traz um conforto enorme, principalmente na hora de dormir.

Quando seu filho pede a mesma história de novo, talvez ele esteja pedindo também o seu colo, a sua voz, aquele momento que se repete e que ele sabe que é dele.

Diga sim

Da próxima vez que ouvir “de novo!”, respire fundo e abra o livro. Você não está repetindo, está cultivando. Cada releitura é uma semente regada mais uma vez.

E um dia, lá na frente, essa criança vai lembrar menos do livro e mais de quem leu para ela tantas e tantas vezes.

Escrevo para os netos que ainda não tenho.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress