Hoje é meu aniversário. E em vez de pedir alguma coisa, eu queria contar uma história que eu nunca contei aqui inteira.

Muita gente acha que eu comecei a escrever tarde. Que depois de trinta anos trabalhando com risco de crédito eu resolvi, de uma hora para outra, virar autora de livro infantil.

Não foi nada disso.

A Tia Giz

Quando minhas gêmeas tinham três anos, eu inventei uma personagem para mim mesma. Chamei de Tia Giz. Ela era contadora de histórias, e existia para que eu pudesse entrar no mundo lúdico das meninas sem pedir licença.

A Tia Giz não ficou só dentro de casa. Ela foi para a igreja, para orfanatos, abrigos, asilos, para o grupo de escoteiros. Nas horas vagas, em família, sem nenhum plano de carreira por trás. Eu só queria contar história para quem estivesse ali.

E antes disso tudo, desde menina, eu já escrevia. Diário, texto solto, memória, coisas que eu guardava sem mostrar a ninguém.

Então não, eu não comecei tarde. Eu comecei cedo demais para perceber que estava começando.

O livro que não era o livro

Em 2011 eu escrevi um texto que vinha de muito fundo. Falava da minha infância numa família disfuncional, com um pai alcoólatra. O título era “Giba, a menina embriagada”.

Eu jurava que ia lançar aquilo para as crianças. Jurava mesmo.

Procurei um ilustrador. Paguei uma parte, e ele sumiu. Procurei outro. Paguei uma parte, e ele sumiu também.

Na época aquilo me doeu demais. Hoje eu entendo o recado.

Aquele texto não era para as crianças. Era para mim. Ele falava da minha dor, e o trabalho dele era me curar, não ser publicado. E ele fez esse trabalho inteiro, do jeito que precisava ser feito. Só que para isso ele não precisava de ilustração nenhuma. Precisava só de ser escrito.

Tem livro que a gente escreve para o mundo. E tem livro que a gente escreve para poder seguir.

Depois teve outro, “Sinapses Relacionais”, esse para adultos. Comecei e não avancei. Também não era a hora.

A folha

Em 2022, eu estava olhando uma folhinha de ipê cair.

Só isso. Uma folha caindo.

E nasceu a Iná.

Foi lindo, e foi rápido, e foi certo de um jeito que os outros não tinham sido. Quando é a hora, a coisa vem pronta. Você percebe porque não trava, não dói, não precisa de permissão de ninguém.

Em 2024 eu escrevi outros vinte e três livros. Vinte e três. Lancei quatro, mais um de colorir. Os outros estão aqui, esperando a vez deles, e eu já não tenho pressa com isso.

Tem um chamado “Nic, o Vagalume”, já escrito e já ilustrado, esperando um lançamento que ainda é um desafio para mim. Ele vai sair. No tempo dele.

E aí, quando chegou a hora, veio tudo junto.

Sentir o cheirinho do meu primeiro livro impresso. Esse é um cheiro que eu não sei descrever e que eu não esqueço mais.

Ganhar um prêmio de excelência gráfica em Santa Catarina, na categoria infantil. Esse não estava em roteiro nenhum. Eu não escrevi pensando em prêmio, e justamente por isso ele me pegou desprevenida.

Pegar na mão o primeiro boneco inspirado num personagem meu. Ouvir as músicas. Assistir às animações. Entrar numa escola e ver que aquela história que nasceu de uma folha caindo no meu quintal agora está na boca de mais de 100 crianças ao mesmo tempo.

Mas se você me perguntar o que de tudo isso me aquece mais a alma, eu não vou dizer o prêmio.

Vou dizer o riso. O olhar contemplativo da criança no meio da história, aquele instante em que ela para de se mexer. E cada abraço que eu recebo no fim de uma contação, de criança que nem sabe meu nome direito.

Foi para isso que a Tia Giz existiu lá atrás, em orfanato, em abrigo, em asilo, sem livro nenhum publicado e sem ninguém olhando. Mudou a escala. Não mudou o motivo.

O que eu aprendi sobre tempo

Eu passei anos achando que o problema era eu ser lenta. Hoje eu sei que era outra coisa: eu estava tentando lançar o livro errado na hora errada.

Treze anos entre a menina embriagada e a Iná. Treze anos que eu poderia chamar de atraso, se quisesse me castigar. Mas não foram. Foram os anos em que eu me curei o suficiente para conseguir escrever sobre esperança em vez de escrever sobre dor.

A Iná não existiria sem a Giba. A folha que cai em paz só pôde ser escrita por alguém que já tinha escrito sobre a folha que caiu machucada.

Nada se perde.

Por que estou te contando isso

Porque eu sei que tem gente lendo isto com alguma coisa guardada na gaveta.

Um texto parado. Um projeto que você começou duas vezes e abandonou duas vezes. Um sonho que você já contou para alguém e que a pessoa achou meio fora de hora.

Se você tentou e não deu certo, talvez não seja porque você não serve. Talvez seja porque aquele não era o projeto, ou não era a hora, ou porque aquele texto tinha outro trabalho a fazer em você antes de ir para o mundo.

Olhe de novo para o que você escreveu. Pergunte para quem era mesmo.

E continue. Porque a sua folha de ipê ainda vai cair na sua frente, num dia qualquer, quando você não estiver esperando.

Meu pedido de aniversário

É só este: não jogue nada fora.

Nem o texto que não foi publicado, nem os anos que pareceram perdidos, nem a versão sua que escreveu aquilo. Tudo isso é terreno. E um dia alguma coisa vai germinar ali.

Obrigada por estar comigo nessa jornada.

Escrevo para os netos que ainda não tenho.

Com as tags aniversário, contação de histórias, escrita, Gisele Késsia, história pessoal, Iná, Livros da Késsia, recomeço, Tia Giz, transição de carreira feminina

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