A promessa que atravessou o oceano

Desde pequena eu tenho um chamado para a África.

É uma dessas coisas que a gente não sabe explicar direito — só sente. Cresci com esse chamado batendo no peito e, aos cinquenta anos, ainda não tinha tido a oportunidade de atender. A África continuava sendo uma promessa não cumprida dentro de mim.

Até que, um dia, vi uma postagem.

Era o PG, anunciando no Instagram que o seu amigo Gu partiria para uma missão em Moçambique. Não sei explicar o que se moveu dentro de mim naquele instante. Mandei uma mensagem para o Gu perguntando se ele teria interesse em levar meus livros de colorir como um presente para as crianças de lá.

Ele não respondeu.

Passaram-se dois meses. Eu já tinha quase deixado a ideia de lado quando resolvi escrever ao PG, contando que havia mandado mensagem ao Gu e não tivera retorno. O PG respondeu na hora: provavelmente o Gu nem tinha visto. E foi exatamente o que aconteceu — minha mensagem tinha caído no spam do Instagram, porque ele não me seguia. Naquele mesmo momento, o Gu entrou em contato. Queria sim. Só não tinha visto.

Às vezes a promessa espera dois meses num spam só para nos ensinar que ela não depende do nosso tempo.

No começo, nem sabíamos ao certo quantas crianças seriam. Foi assim, aliás, que a Iná ficou conhecida através do Gu — e da Giselle, a líder que também foi para a África. Dá pra chamar de coincidência? Eu prefiro chamar de Jesuscidência.

E foi enquanto eu separava os livros que ardeu no meu coração uma certeza: não bastava enviar os livros. Precisávamos enviar também os lápis de cor. E não podiam ser lápis qualquer — tinham que ser lápis de verdade, daqueles que pintam de verdade, que fazem a cor saltar no papel. Uma criança merece pintar o próprio mundo com cor que aparece.

Conversei com o Ricardo, meu marido. Disse a ele que não adiantava mandar os livros sem os lápis. Ele topou na hora.

“Ri”, eu falei, “vou fazer uma campanha de apadrinhamento. Vamos ver o que a gente consegue — e o que não conseguirmos, a gente mesmo envia.”

E assim fizemos.

Foi assim que nasceu a campanha Iná vai à África.

Cada dia chegava um volume de caixas em casa. Uma atrás da outra. Cada caixa era alguém que tinha decidido fazer parte dessa travessia, mesmo sem nunca pisar em Moçambique, mesmo sem nunca conhecer aquelas crianças. O que começou sem número certo foi crescendo, crescendo — até virar 200 livros e 200 caixas de lápis de cor.

O Gu e alguns amigos foram primeiro a São Paulo, para um treinamento, levando a Iná junto. Os 200 livros e as 200 caixas de lápis foram distribuídos dentro das malas. Quinze dias depois, tudo foi redistribuído entre a equipe que partiria para a África.

{“tint”:-7.291668,”temperature”:7400}

Essa equipe foi feita de pessoas que eu faço questão de nomear, porque cada uma delas carregou a Iná — e o sonho de tantos padrinhos — dentro da mala e do coração:

Ana Flávia, Carla, Eduarda, Gabrielle, Giselle, Guilherme, Gustavo, Laís, Layza, Maria Luiza, Nathalia, Rafael, Viviane, Vitor, Vitória e Yana.

A cada um de vocês, a minha gratidão não cabe em palavras. Vocês foram as mãos e os pés dessa promessa.

E então começou a verdadeira travessia.

Foram várias conexões. Voos perdidos. Uma mala extraviada. Cada obstáculo parecia perguntar se a gente ia mesmo levar aquilo até o fim. Mas os presentes chegaram.

Chegaram à Escola e Lar Arco-Íris Machava. Chegaram até os sorrisos mais lindos que eu já vi. Exatamente aqueles com que eu sonho há anos.

Quando as imagens chegaram até mim, minha filha me fez uma pergunta que eu vou carregar pelo resto da vida:

“Mãe, então a sua promessa de ir para a África já foi cumprida através dos seus livros?”

Eu parei. Pensei. E respondi:

“Não sei, minha filha. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.”

Porque uma folhinha de ipê-amarelo que atravessa o oceano não termina a história quando chega. Ela apenas começa.

E eu ainda tenho um chamado batendo no peito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress