Em 2022, eu começava a tirar da gaveta os meus livros infantis.
O primeiro deles, A Jornada de Iná, nasceria oficialmente em 2023 — mas antes disso, ele já germinava dentro de mim como uma semente inquieta.

Enquanto escrevia, intensifiquei minhas pesquisas sobre projetos que resgatassem a natureza e a contemplação na vida das crianças. Eu sentia que não bastava falar sobre natureza — era preciso vivê-la.

Foi então que descobri que, aqui mesmo em Aracaju/SE, já existia alguém fazendo esse movimento de reconexão de forma concreta e corajosa. Assim encontrei a Encantos da Restinga e o seu fundador, Camilo.

Entrei em contato para entregar um presente. Ele me recebeu com generosidade — mas não foi na florestinha. Nosso primeiro encontro aconteceu no concreto da cidade, no Museu da Gente Sergipana, onde ele conduzia uma vivência da Encantos da Restinga.

Ali, entre paredes urbanas, ele criava um território de natureza. O brincar acontecia, a terra encontrava espaço, e as crianças experimentavam liberdade mesmo fora da floresta.

Nossa conversa foi breve, quase atravessada pela dinâmica da atividade, mas suficiente para que eu sentisse: ali havia propósito.

Pouco tempo depois, agendei minha primeira vivência na Encantos.
Respirar ali foi mágico. Minha criança interior ficou feliz da vida.

Naquele dia, fiz contação de história, interagi com crianças e famílias e apresentei a Iná — que, até então, era minha única personagem nascida. Hoje, já estou em vias de lançar meu sexto livro (se contar o de colorir). Fiz leitores maravilhosos como o Artur, que tem toda a minha coleção e me chamou para fazer contação em seu aniversário.

Enquanto isso, eu seguia acompanhando o crescimento da Encantos e admirando, de longe, a resiliência do Camilo.

Recentemente, eu e a Iná voltamos à florestinha. Levamos conosco uma muda de Handroanthus albus, o nosso ipê-amarelo, para morar ali.

Camilo está em um processo de retirada de espécies invasoras, e quisemos contribuir com o plantio de uma árvore nativa — símbolo de resistência e florescimento.

Aproveitei esse reencontro para conversar com ele. Compartilho aqui trechos da nossa entrevista.


Quem é Camilo?

“Sou biólogo, educador ambiental e fundador dos Encantos da Restinga, uma floresta planejada para crianças brincarem e aprenderem em contato com a natureza.”

Mas quando é uma criança que pergunta quem ele é, a resposta muda:

“Eu digo que me chamo Camilo, sou surfista e pesquisador.”

Talvez aí já esteja uma pista importante: ele fala a língua da infância.


Da biologia à florestinha

Camilo conta que começou na biologia pelo amor à vida em todas as suas formas.

“A beleza da natureza, desde o mar até um trilho de formigas, me encanta.”

Ele revela também que a biologia foi, de certo modo, uma válvula de escape dentro de um modelo educacional que considera ultrapassado e pouco valorizado.

O nome Encantos da Restinga veio de sua mãe, dona Val.
Antes, o espaço se chamava “Chácara Paraíso” — nome que ele achava prepotente.

“Paraíso é algo que eu quero para todos e para mim.”

A Encantos nasceu do desejo de criar um espaço onde a infância pudesse existir com liberdade, terra nos pés e vento no rosto.


Desafios e solidão

Empreender na educação ambiental não é simples.

Camilo fala da dificuldade de encontrar as pessoas certas para a equipe, da baixa adesão nos dois primeiros anos e da solidão de empreender.

Ele também toca em uma ferida social:

“A sociedade brasileira e nossos governos não valorizam professoras e professores e seu ofício sagrado de preparar as próximas gerações para serem melhores do que nós.”

Mesmo assim, ele permaneceu.


Uma folha de bananeira que virou símbolo

Entre tantas histórias, uma marcou profundamente sua trajetória.

Durante a pandemia, uma criança de cerca de quatro anos enfrentava dificuldades para pisar na grama e participar do banho de mangueira. Camilo então criou um caminho com folhas verdes de bananeira até o local da brincadeira.

A criança percorreu o caminho.

Depois, refez o trajeto de volta, recolocando folha por folha até retornar aos braços emocionados dos pais.

“Até hoje penso em fazer uma tatuagem de uma criança segurando uma folha de bananeira, porque esse momento faz parte de quem eu sou e do profissional que me tornei.”

Há memórias que se tornam raízes.


Um novo momento

Hoje, Camilo vive uma fase de amadurecimento do empreendimento.

“Compreender seus ciclos, sua sazonalidade e saber dar o devido valor ao serviço que eu presto.”

Ele também fala de algo muito humano: trabalhar menos, ganhar melhor e ter mais tempo com sua mãe e seu pai — duas das maiores razões que o fazem lutar por um mundo melhor.


A retirada das árvores invasoras

A decisão de remover espécies invasoras nasceu da compreensão ecológica.

Segundo ele, trata-se de uma consequência de um projeto de reflorestamento urbano que desconsiderou o papel das espécies nativas brasileiras na oferta de recursos para aves, abelhas e outros animais.

“As espécies invasoras acabam com a biodiversidade e estabelecem uma concorrência desleal. As nativas não têm chances de competir por luz, se reproduzir e oferecer recursos para nossa fauna.”

Retirar invasoras é restaurar equilíbrio.
É abrir espaço para o que pertence.

Talvez isso também seja uma metáfora para a educação.


Desistir?

“Em vários momentos”, ele admite — sobretudo nos períodos de crise financeira e desvalorização do educador.

Mas hoje, ao olhar para trás, sente orgulho da história construída.

“Me animo com o futuro e as parcerias que estão chegando anunciam novas formas de reconectar criança e natureza. Sem uma, a outra não existe. E a destruição da natureza caminha de mãos dadas com a destruição da infância.”


Plantar um ipê é plantar futuro

Quando levamos nossa muda de ipê-amarelo para a florestinha, senti que fechávamos um ciclo e iniciávamos outro.

Tirar o que sufoca.
Plantar o que floresce.
Cuidar do que é nativo.

Assim como na natureza, também na infância.

Que possamos abrir espaço para mais florestas — externas e internas.

Com carinho,
Gisele Késsia Gelschleiter

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